quinta-feira, 29 de abril de 2010

Piada sem graça

Morrer é simplesmente ridículo. Você combinou de jantar com o namorado, está em pleno tratamento dentário, tem planos para a semana que vem, precisa autenticar um documento no cartório, colocar gasolina no carro e no meio da tarde morre. Como assim? E os e-mails que você ainda não abriu, o livro que ficou pela metade, o telefonema que você prometeu dar a tardinha para um cliente? Não sei da onde tiraram essa ideia de morrer. A troco de que? Você passa mais de 10 anos da sua vida dentro de um colégio estudando fórmulas químicas que nunca serviriam para nada, mas se manteve lá, fez as provas, foi em frente. Praticou muita educação física, perdeu o fôlego, mas não desistiu. Passou madrugadas estudando para o vestibular sem ter certeza do que gostaria de fazer da vida, cheio de dúvidas quanto a profissão escolhida, mas era hora de decidir, então decidiu, e mais uma vez foi em frente. De uma hora pra outra tudo isso termina em uma colisão na freeway, numa artéria entupida, num disparo feito por um delinquente que gostou do seu tênis. Qual é? Morrer é um chiste. Obriga você a sair no melhor da festa sem se despedir de ninguém, sem ter dançado com o garoto mais lindo, sem ter tido tempo de ouvir mais uma vez a música preferida. Você deixou em casa suas camisetas penduradas no cabide, sua toalha úmida no varal e pendurada também algumas contas. Os outros vão ser obrigados a arrumar suas tralhas, a mexer nas suas gavetas, a apagar as pistas que você deixou durante uma vida inteira. Logo você que sempre dizia: das minhas coisas cuido eu. Que pegadinha macabra: você sai sem tomar café e talvez não almoce, caminha por uma rua e talvez não chegue na próxima esquina, começa a falar e talvez não conclua o que tem a dizer. Não faz exames médicos, fuma dois maços por dia, bebe de tudo, curte costelas gordas, homens e morre num sábado de manhã. Se faz check-up regulares e não tem vícios, morre do mesmo jeito. Isso é para ser levado a sério? Tendo mais de cem anos de idade, vá lá, o sono eterno pode ser bem vindo. Já não há mesmo muito a fazer, o corpo não acompanha a mente, e a mente também já rateia, sem falar que há quase nada guardado nas gavetas. Ok. Hora de descansar em paz. Mas antes de viver tudo, antes de viver até a rapa? Não se faz. Morrer cedo é uma transgressão, desfaz a ordem natural das coisas. Morrer é um exagero. E, como se sabe, o exagero é matéria prima das piadas. Só que está não tem graça.

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